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domingo, 7 de outubro de 2012

NO FIM DO CORREDOR





Hugo andava com a cabeça baixa pela rua escura, pensando no péssimo dia que teve. A nota baixa na prova de matemática; o caderno que ele não fazia ideia de onde havia deixado; a sola do sapato que começou a descolar. Tem dias em que tudo que poderia dar errado acontece, e este, definitivamente, era um desses um desses dias. Não havia vivalma na rua, e tudo o que se podia ouvir era um latido distante, e o som de uma televisão ligada. Hugo chegou em casa; procurou a chave na bolsa e abriu a porta silenciosamente. Pelo silêncio, presumiu que sua mãe estava dormindo. O estado em que ele encontrou a sala o deixou assustado: os móveis estavam revirados; as almofadas rasgadas; e o sofá estava praticamente virado do avesso, totalmente destruído. Aparentemente, todas as luzes da casa estavam acesas, mas não se escutava som algum, até que um barulho veio dos quartos.
                Ele largou a mochila no chão, e arrancou, o mais silenciosamente possível, um dos pedaços de madeira do sofá destruído. Hugo caminhou cautelosamente pelo corredor da casa, com a tora em mãos. Parou na frente da porta do quarto de sua mãe, que estava entreaberta. Segurou a maçaneta e empurrou-a lentamente, revelando uma cena que o deixou completamente aterrorizado. Sua mãe estava sentada no chão, encostada na parede oposta, chorando, com boca e testa sangrando. Um homem estranho revirava as gavetas com a mão esquerda, enquanto que com a direita apontava uma arma para Tereza, mãe de Hugo. O bandido não percebeu que ele havia aberto a porta, pois estava de costas para ela, mas percebeu quando o garoto partiu para cima dele com o pedaço de madeira, mirando sua nuca, e, por reflexo, disparou a arma. Hugo acertou o lado da cabeça do homem, que caiu desacordado. O garoto, instintivamente  procurou um segundo bandido, mas tudo o que encontrou foi sua mãe jogada no chão, com a blusa ensanguentada. Ele largou a tora, e correu para junto de Tereza. Ela já não respirava mais. Seus olhos estavam vidrados, e uma lágrima solitária derramava-se em direção a poça vermelha no chão. Hugo tentou reanima-la, mas não havia mais nada a se fazer. Ele envolveu o corpo da mãe em seus braços, sujando-se com o sangue fresco, enquanto dava urros de dor e desespero. O garoto havia esquecido totalmente do homem desacordado no chão do quarto, que começou a se mexer.
                Hugo virou o rosto para o bandido, que recobrava lentamente a consciência. Ergueu-se, deixando o corpo de Tereza no chão, e caminhou até ele. O homem tentava debilmente alcançar  a arma que havia caído a alguns passos de sua mão, mas Hugo chegou primeiro, pisando calma e pesadamente na mão que o bandido esticava, e pegando a pistola do chão. A mais pura frieza estava estampada em seu rosto, como se ele fosse um marionete, sendo controlado por fios invisíveis. Ele apontou a arma para o bandido, que, quando percebeu, ficou aterrorizado.

— Eu não tive culpa. Ela... eu precisava do dinheiro. Ela estava me devendo. Eu não queria... — mas Hugo não deixou o homem terminar de falar.

Os vizinhos, depois de escutarem o primeiro tiro, correram todos para a porta da casa de Dona Tereza. Ficaram questionando-se, aos cochichos, o que estava acontecendo lá dentro, espantados, pois Tereza e o filho não eram de se meter com coisas erradas — ou, pelo menos, era isso que aparentavam. No entanto, quando se ouviram mais três tiros vindos de dentro da casa, todos correram para suas respectivas residências, deixando a rua, novamente, deserta e silenciosa.

5 comentários:

Fernando Targino disse...

Nossa!Que texto forte! Cara tu tem talento e muito Talento! Cena forte,dramática e MUITO bem narrada,melhor do que muito livro que eu li ultimamente.

Tbm tenho um blog se puder ir lá dar uma olhada agradeço!

http://nandotarg.blogspot.com.br/

Pedro Lourenço disse...

Obrigado Fernando!
= D

Claudio Chamun disse...

Dá-lhe Pedrão.
Sou fá dos teus textos.
Adoro ver bandido morrer.

www.cchamun.blogspot.com.br
Histórias, estórias e outras polêmicas

Pedro Lourenço disse...

Obrigado Claudio!
Matar bandidos é o sonho de todo mundo, e nós, como escritores, temos esse poder.

Jefferson Reis disse...

Um texto que me fez pensar: O que eu faria?