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sexta-feira, 12 de abril de 2013

CRIME PASSIONAL





Meu amor foi sua ruína. Naquele dia ensolarado de março, debaixo da mangueira de abrasantes folhas, ela disse sim. A inocente moça não sabia que, além do meu amor, estava aceitando as desgraças guardadas paro os fins das tragédias; aceitava em sua vida um sinal de sangue de morte.
            Gritos. Sirenes. Acusações. Os trovões que explodiam ao meu redor não passavam de ecos distantes, ressoando nos ouvidos de alguém que não era mais eu. O mundo resumia-se aos últimos suspiros dela, ao estrondoso silêncio que ecoava de sua garganta seca. Voz quase morta de uma quase-morta.
            A mão trêmula posta sobre a barriga, guardando para Deus um futuro que não mais existiria. O pior não era a ferida aberta, ou o terror nos olhos, mas sim a boca, que se abriu uma última vez para proferir algumas poucas palavras que em outra ocasião seriam doces e bem-vindas, mas que agora soavam como a mais imunda e miserável das maldições.
           
― Eu estou grávida... de um filho seu.

Os olhos fecharam-se. A verdade trancou-se em seu corpo gelado. Prefiro a dúvida: diminui o impacto das acuações e mantém meus pensamentos distantes da culpa. Como saberei se o filho era meu, ou do irmão dela, que encontrei atracado entre suas coxas? Como saberei se era uma criança que viria ao mundo, ou uma aberração, condenada desde o seu nascimento para queimar no inferno? Como saberei? Prefiro não saber.
Não foi pela repugnante traição, e sim pela vergonha, não a minha, a dela. Os dedos apontados, os gritos de “adúltera” e “incestuosa”. Livrei-a de ser marcada a fogo pela sociedade. Livrei-a da desgraça de morrer em vida. Ela e o irmão dela. Fiz a melhor escolha, eu sei. Incontáveis línguas ainda derramam veneno sobre o corpo dela, e sobre as grades da minha cela, mas este foi o menor dos infortúnios; pelo menos não vejo os olhares, e ela nunca mais verá olhar algum. Melhor uma vida interrompida do que uma vida amaldiçoada. Matei-a por ama-la demais. 

4 comentários:

Vitória disse...

Uou. Surpreendente. Acho que o amor faz isso mesmo, praticamente leva alguns a loucura, ou algo assim.
Adorei o texto(a história), demais.
http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

Claudio Chamun disse...

Voltaste em grande estilo.

Pedro Lourenço disse...

Obrigado, galera.

Claudio Chamun disse...

Lido, de novo.